A lua ainda domina o céu quando os graves do tambor começam a ecoar. São quatro e vinte de manhã e, em instantes, o tilintar de um sino correrá os quartos despertando aqueles que seguem agarrados ao sono. Não há muito em que pensar: em dez minutos todos devem estar sentados no Sodô, o templo da meditação, pernas cruzadas à frente, mão direita sustentando a esquerda com os polegares bem unidos acima, olhos entrecerrados.
Estamos em um mosteiro zen budista no alto da montanha, e esse é o primeiro momento de um dia que se encerrará apenas às nove da noite, quando o silêncio cai sobre todos, por norma (o kaitin) ou simplesmente cansaço.
Somos 63 pessoas, mas apenas um de nós é propriamente um monge. Vêem-se algumas outras pessoas, homens e mulheres, que também vestem o desbotado quimono azul e chegam a ter o cabelo raspado; esses, contudo, são os “ordenados”, indivíduos que levam uma vida comum fora do mosteiro, mas que assumiram um compromisso mais profundo com o budismo e com o monastério. São eles que coordenam a estruturada rotina da grande maioria de leigos (cerca de 50) que vieram para o retiro (seshin).
O dia será intenso. Sete sessões de meditação (zazen) nos aguardam, intercaladas por pausas para uma cerimônia de sutras, refeições, trabalho ―sim, aqui todos têm de se envolver nos afazeres, da limpeza dos banheiros à preparação da comida―, o relaxante banho no ofuro e algo descrito no programa como “atividades múltiplas”, o que pode ser uma oficina de oryoki (o conjunto de tigelas, pauzinhos, colher, espátula e lenços utilizados para o desjejum, de forma detalhadamente metódica) ou simplesmente um vídeo que conta um pouco mais da história do mosteiro.
Intimidante a princípio, essa rotina aos poucos vai fazendo parte da normalidade. Sutilmente. Quando se nota, já não desperta surpresa ou incômodo a ninguém ter de tirar os chinelos e deixá-los perfeitamente justapostos à entrada dos templos ou habitações, acabando por formar um mosaico de formas e cores que indicam que há vida lá dentro. O mesmo se diga com relação a comer em resoluto silêncio, permanecer sentado em meditação por longos minutos ou deixar o seu zafu rigorosamente alinhado com os demais ao deixar o Sodô.
Nada disso é devoção a Buda ou qualquer outra divindade. Trata-se apenas de “treinamento”, como frisa o monge. Não vem acompanhado de teoria, doutrinamento religioso ―o budismo é a “filosofia da não-filosofia”, como se ouviu de um doutorando em filosofia indiana que esteve conosco― ou tentativa de forçar mudanças nos participantes. Há até um certo orgulho na fala do abade quando diz que “em tantos anos, jamais convertemos ninguém”, transformando em ponto positivo aquilo que, para muitas religiões, seria evidente sinal de fracasso.
Muitos de nós já estiveram no mosteiro antes, alguns são freqüentadores contumazes, mas a maioria é mesmo marinheira de primeira viagem. Uma senhora cujos cabelos grisalhos denotam já meio século de vida diz que pretende começar a “eternizar-se”. Outra nutre a pretensiosa esperança de encontrar a “iluminação” nos sete dias de retiro. Um rapaz de olhos claros, advogado ainda jovem mas já fatigado pelo trabalho, dramatiza: “ou vinha para cá ou dava um tiro na cabeça”. O propósito ou despropósito da maior parte, contudo, permanece oculto ou é indiferente ―estão aqui, e isso, curiosamente, não mais requer explicações.
Com o correr dos dias, o grupo irá construindo uma cumplicidade e empatia inesperadas. Há velhos e adolescentes, há magros e gordos, artistas, professores, funcionários públicos. Despidos dos personagens que encenam no mundo lá fora, tornam-se essencialmente pessoas e, nessa condição, inevitável não irem se tomando e deixando tomar por um espírito de experiência compartilhada.
Não há espaço para misticismo. Nem para adorações a Buda ou busca de um “guru” ―papel que o monge enfatiza recusar. Tudo é, pelo contrário, muito concreto, mundano. São nos rituais do cotidiano, nos afazeres do trabalho, no simples sentar-se quieto em meditação que reside o potencial de transformação, o caminho para atingir o nirvana que cada um construirá para si. Essa parece ser a mensagem que tentam nos repassar nas entrelinhas de cada dia.
Para aqueles que achavam que a paz interior seria alcançada “ao subir a montanha e comer arroz integral”, como ironiza o monge, isso pode ser um pouco frustrante. Ela precisa ―e pode, animam-nos― ser encontrada na frieza da cidade, nos desafios do dia a dia, nas turbulências de um mundo em crise. Não é preciso cenário idílico ou rigor monástico para isso.
Decepcionaram-se nossas colegas que almejavam a eternidade ou iluminação fast food? Salvou-se o advogado em desespero? Não sabemos. Possivelmente deixaram o mosteiro sem resposta às perguntas que trouxeram consigo. Mas, com alguma dose de sorte e dedicação, saíram daqui com pistas de um caminho a seguir ―e caminhar, por vezes, é tudo o que precisamos.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
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