sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A ditadura das crianças

Juana tentava convencer-me de que eram apenas umas seis ou sete. “Impossível”, dizia eu. “Pareciam centenas.” E, de fato, durante a hora que tínhamos permanecido na festa, surgiam elas de todos os cantos: de debaixo das mesas, da sacada do apartamento, por entre as pernas mais altas que circulavam pelo ambiente. Sorriam, gritavam, faziam gestos graciosos, pulavam, jogavam, abraçavam-se entre si para, em seguida, estranharem-se e vice-versa. Inundavam a sala.

Depois de alguns minutos, já cansada dessa boba discussão, Juana olhou para mim e concluiu: deslocados não eram eles, éramos nós, que ainda não havíamos nos ambientado a essa atmosfera, digamos, “intergeracional”. Eu ainda retruquei: “Mas era o aniversário de um adulto!” Não adiantou.

Quando crianças entram em cena, nada as detém. Festa de adulto vira gincana, os jantares que, antes, eram marcados por interessantíssimas discussões tornam-se momentos de entrecortadas conversas sobre amenidades, os livros são pisoteados e passam a ter todas as mais imaginárias funções, menos a de permitir uma agradável leitura.

Não há dúvidas: nós, casais trintões, estamos sendo duramente perseguidos pela ditadura das crianças (não confundir com uma outra ditadura, mais sutil, perpetrada por alguns familiares e amigos que, sempre que nos encontram, lançam a intimação: “E aí, já pensam em ter filhos?”). Aonde chegam, a atmosfera se transforma, é por elas dominada, subvertida. E ainda há quem as trate por “frágeis e indefesas criancinhas...”. Santa paciência!

Pensando bem, contudo, talvez o problema não esteja com elas e, sim, com nós adultos. Elas estão fazendo a parte delas ―e não lhes faltam instrumentos de marketing ou mecanismos de protesto para assegurar que essa tarefa seja cumprida à risca (note, por exemplo, a rapidez com que uma criança adota e repete gestos que percebe surtir reações favoráveis no adulto a sua frente). Nós é que sucumbimos. Por que temos de nos abestalhar diante delas? Crianças já têm, por natureza, um sentimento oceânico, confundindo-se com tudo e todos a sua volta; será preciso, além de oceano, fazê-las sentir também um sol, centro do universo?

Gosto muito de crianças, muito embora raramente perceba por parte delas um sentimento recíproco... Elas sempre me olham com desprezo, como se fossem mais inteligentes do que eu (e talvez o sejam). Tenho de suar a camisa para conseguir a atenção delas. Mas há de haver momentos para nos divertirmos com a garotada e momento para nós, adultos com ou sem filhos, interagirmos.

Abaixo, pois, a ditadura das crianças! Ou, melhor: dos adultos que elas, astuciosamente, colocaram no poder.

Espero conseguir adeptos para este movimento rapidamente. Caso contrário, só me resta o exílio, na condição de deslocado-mor. Isso tudo, evidentemente, antes que eu mesmo me torne um pai ―quando, então, já será tarde demais para qualquer revolução e serei, provavelmente, o maior e mais feliz fantoche da criançada.

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