O carro não tinha rádio. Em seu lugar, vínhamos batucando algumas músicas pela estrada, utilizando os livros —que, em geral, viajavam mesmo apenas para passear conosco no fim-de-semana— como instrumentos. Depois de quase uma hora de viagem, a Castelinho finalmente se prolongava no horizonte. A subida íngreme, já no seu trecho final, anunciava que estávamos chegando. Na medida em que o carro a vencia e chegava ao topo, a cidade começava a se descortinar diante de nós. Era Sorocaba.
A alegria ao ver aquela imagem era tamanha que, estudantes de direito à época, nos divertíamos fazendo com que, a cada semana, um de nós ficasse encarregado de um rápido e bem-humorado discurso em homenagem à cidade. Sorocaba, então, era não somente a terra de nossas famílias e amigos. Era a tradição tropeira, que proclamávamos com gosto e que tanta influência exercia, desde sempre, em nosso imaginário; era a “Manchester paulista”, motriz para o desenvolvimento do Estado e do país; era o lugar de gente como nós, de sotaque carregado e com especial apego às vogais, onde pessoas das mais diversas origens resolveram sentar pé para criar algo novo, para forjar a sua identidade individual e coletiva, para, enfim, desenvolver —consciente ou inconscientemente— uma história e uma cultura que lhes são próprias.
Hoje, porém, cada vez que retorno à cidade, uma grande e chamativa placa amarela situada na junção da Castelinho com a avenida Dom Aguirre tenta me convencer de que estávamos enganados. Sorocaba não é mais a terra de sua gente. “Sorocaba” —adverte a placa— “é do Senhor Jesus Cristo”.
A frase certamente não teria me causado maior estranhamento não fosse por um pequeno detalhe: o fato de ter sido chancelada pelo Estado, eis que a placa se situa, aparentemente, em um terreno público.
Não se trata aqui, portanto, de uma crítica às religiões cristãs ou às doutrinas que pregam. Muito pelo contrário: nutro por todas elas um absoluto respeito, até mesmo porque encontro na minha própria família —a começar pelas minhas duas avós— meus grandes exemplos de devoção e fé. A minha desconfiança, pois, é outra. É com uma certa confusão que uma placa como aquela revela, simbolicamente, entre os limites do público e do privado.
Público, ao menos em seu sentido político, é o que é de todos. É um conceito inclusivo, universalista, que não pode ser confortavelmente associado a características, crenças ou desejos íntimos de um indivíduo ou de um grupo —ainda que este grupo seja majoritário. Em uma democracia constitucional como a nossa, nem mesmo a maioria tem o poder de fazer o que bem quer. Especificamente no campo religioso, a Constituição brasileira não deixa dúvidas: esse é um assunto do domínio íntimo, privado, de cada cidadão. A única tarefa que, aqui, cabe ao governo é a de assegurar essa liberdade; jamais a de privilegiar, defender ou, menos ainda, adotar como própria uma determinada crença.
Meu argumento, contudo, não pretende ser jurídico. A primeira indagação que sempre me vem à mente quando chego a Sorocaba é de outra natureza. Pergunto-me: será que a frase insculpida na placa que dá as boas-vindas aos nossos visitantes é realmente aquela que melhor define a identidade de nossa cidade e de seus habitantes? E, então, tenho muita dificuldade em responder afirmativamente. Não que os sorocabanos não sejam profundamente religiosos; sabemos que o são. Ocorre tão somente que essa é uma característica não de Sorocaba, da região ou do Estado. É uma característica de nosso país. A mesma placa que hoje serve como pórtico municipal poderia ser transferida, sem muitos prejuízos, para inúmeras outras cidades brasileiras. Não seria melhor, nesse espaço, valorizar traços culturais que nos são próprios ao invés de elevar algo que pouco diz pouco sobre as particularidades de nossa terra e nossa gente?
Existe uma segunda indagação, contudo, ainda mais significativa. Sorocaba sempre foi uma cidade acolhedora, que não selecionou seus habitantes em função da religião que praticavam ou deixavam de praticar. Há aqui muitos cristãos, mas se encontram também budistas, judeus, muçulmanos e seguidores de tantas outras crenças. Temos em João de Camargo um belo exemplo de sincretismo religioso, fundado em uma comunidade local remanescente de quilombos. E há ainda aqueles que não se afiliam a religião alguma. Não será constrangedor ou, até mesmo, doloroso para os sorocabanos não-cristãos terem de conviver com uma placa que afirma que a sua cidade, a cidade que estão ajudando a construir, é “do Senhor Jesus Cristo”? Não seria essa uma sentença inadequada à diversidade que tanto enriquece este povo?
Até onde é de meu conhecimento, Jesus nunca teve necessidade de se apropriar de coisa alguma, quanto menos de uma cidade. Aí reside justamente um dos elementos mais belos de seu legado. Deixemos, pois, o Cristo em paz. É hora de retirar a tal placa amarela e retorná-la a quem de direito, devolvendo ao terreno a laicidade que ele jamais deveria ter perdido.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
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