Certa noite, minha mulher e eu, cansados após duas frustradas tentativas de organizar um casamento propriamente dito, passamos os anéis da mão direita para a esquerda. Não havia juiz nem testemunhas; acreditamos que, sendo os principais interessados no assunto, estávamos autorizados a celebrar nosso próprio matrimônio. A partir daquele dia, passei a considerar-me casado.
Ledo engano. Não sabia, àquela altura, que a expressão “considerar-se casado”, embora soe tão natural (e moderna, alguém diria), contém uma contradição em termos. A um indivíduo ou casal isolado não é dado o poder de se achar casado; são todos os demais ―família, amigos, a síndica do prédio, o chefe, o colega de faculdade― que assim nos consideram. Nós, os “nubentes”, damos um empurrãozinho, tomando a decisão de provocar a consideração daqueles a nossa volta; mas, sem a anuência destes, alguém pode estar tudo, menos casado.
Faço essas reflexões após um duplo casamento ―um no Brasil e outro na Argentina, terra de minha mulher― que, finalmente, após cinco anos vivendo juntos, conseguimos tornar realidade.
Pois é, conferi na prática aquilo que os antropólogos há muito já tinham constatado: o casamento é, antes de tudo, uma instituição social. Quer casar? Vá ao cartório, convoque o padre ou, simplesmente, chame os amigos para uma festa. Qualquer coisa que inclua um terceiro ―ou, melhor, “terceiros”. Casamento unicamente a dois é, guardadas as devidas proporções, como sexo solitário: pura masturbação.
Longe de mim pretender fazer, aqui, uma defesa do casamento. Muito pelo contrário; conheço vários casais que jamais se casaram, e nem cogitam de fazê-lo, e que tem um com o outro um compromisso mais sólido e uma relação mais firme e bonita do que muitos matrimônios sacramentados com véu e grinalda. Eu próprio vivi essa experiência por mais de cinco anos. A eles, desejo que continuem assim. Só não me venham, com todo respeito, dizer que “se consideram casados”...
Casamento, portanto, não é imprescindível na vida de ninguém. Mas vai aqui uma revelação: é divertido à beça. E foi uma surpresa constatar isso. Você conta que vai se casar e as pessoas ficam felizes, o enchem de abraços, entopem a sua casa de presentes. Mesmo os mais fervorosos críticos a qualquer idéia de amor sacramentado pelo Estado, pela sociedade ou pela religião, após dois copos de champanhe deixam os pruridos ideológicos de lado e se põem a pular e cantar junto com você aquele hit dos anos 80 ao qual, em outras ocasiões, nunca chegariam próximos. Se no mundo há mesmo uma “energia positiva”, o matrimônio é, sem dúvida, um grande estopim para liberá-la.
Na manhã de uma segunda-feira, recém chegados da lua-de-mel, minha mulher olhou para mim e perguntou: podemos casar de novo?
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
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